Os Pequenos Imprescindíveis

Almas da Guiné-Bissau

As crianças são a alma de um povo, de um país e de um planeta. Sem elas, não há alegria, não há esperança e não há futuro.

Na Guiné-Bissau, a inocência e a alma genuína das crianças são postas em causa todos os dias. Faltam condições básicas. Faltam cuidados de saúde. Faltam alimentos. O lixo acumula-se nas ruas, a céu aberto.  E quem tem o poder de mudar esta dura realidade… parece simplesmente não querer saber.

Como é que alguém que diz amar o seu país permite que as “suas” crianças passem fome? Que vivam com barrigas inchadas pela subnutrição e olhos cansados de tanto sofrimento? Como é que isto pode ser considerado normal? Não devia ser assim.

É uma realidade que me revolta, que me emociona e que me parte o coração. Porque são crianças. Porque são seres humanos. E mesmo com tudo o que enfrentam, ainda conseguem sorrir. Faz-se tão pouco… e há tão poucos a fazer o pouco que se faz. Não é justo. Nunca será justo.

Números que Valem Mais que Mil Palavras

21% das crianças entre os 6 e os 11 anos nunca frequentaram a escola devido a barreiras socioculturais, económicas e geográficas. (Revista Comunidades Portuguesas, 2023)

27% das crianças completa o ensino primário. Uma das taxas mais baixas do mundo. (UNICEF, 2024)

30% das crianças sofre de desnutrição crónica. (UNICEF, 2024)

39% das escolas tem dificuldade em aceder à água. (UNICEF, 2024)

54% das crianças não é registada à nascença. (UNICEF, 2024)

46% dos adultos são analfabetos: 59% das mulheres no país são analfabetas e 32% dos homens são analfabetos. (Country Economy, 2022)

76% das crianças sofre algum tipo de punição física. (UNICEF, 2024)

88% das crianças entre os 6 e os 14 anos não beneficiam de uma dieta mínima adequada. (UNICEF, 2024)

Entrevista: Pequenos Imprescindíveis

Mamadu Djaló é presidente da Associação Protege. Esta organização dedica-se à defesa dos direitos humanos e realiza ações de sensibilização em várias comunidades, para garantir que todos tenham acesso a uma educação de qualidade.

Djibril Sano é professor de matemática numa escola em Bigene. Uma das maiores dificuldades é a sobrelotação das salas de aula. Nesta escola, existem apenas 13 salas de aula para mais de 1000 crianças. Djibril luta incansavelmente para garantir que todos tenham acesso a uma educação de qualidade.

Como é a educação na Guiné-Bissau?

(Mamadu) A educação na Guiné-Bissau enfrenta inúmeros desafios. Há uma grande falta de infraestruturas adequadas, escassez de professores e outros recursos essenciais. A situação é crítica e reflete-se negativamente na qualidade do ensino em todo o país.

(Djibril) A educação na Guiné-Bissau é muito difícil. Nem todas as crianças têm acesso à escola. Para as famílias mais vulneráveis, é particularmente complicado garantir a educação dos filhos. Quando os pais não têm condições para matricular uma criança, ela fica fora do ensino. É raro uma criança conseguir concluir o percurso escolar do início ao fim.

Existem escolas suficientes para todas as crianças?

(Mamadu) Infelizmente, não. Muitas crianças continuam fora do sistema educativo, sobretudo nas zonas rurais.

(Djibril) Não e o problema vai além do número de escolas. Também faltam recursos humanos, nomeadamente professores. Por exemplo, aqui em Bigene, existem apenas 13 salas de aula para mais de 1000 crianças. Isto torna o ensino praticamente impossível. 

Como descreveria uma escola na Guiné-Bissau?

(Mamadu) É uma situação muito difícil. É terrível. Muitas escolas têm os telhados danificados, chove dentro das salas de aula durante a época das chuvas (junho, julho, agosto) e as infraestruturas não oferecem condições mínimas para os alunos e professores.

(Djibril) Do primeiro ao sexto ano os alunos não pagam. Mas a partir do sétimo ano até ao fim do secundário, há custos. Para uma família sem meios económicos, é extremamente difícil manter os filhos na escola até ao final. Esta realidade leva muitos estudantes a abandonar os estudos a meio do percurso.

Existem condições de transporte escolar? 

(Mamadu) Não, praticamente não existem. Por exemplo, na Guiné-Bissau, vi um autocarro que pertencia ao Liceu Nacional, mas apenas de algumas escolas privadas. Fora isso, não há transporte escolar público. A maioria das crianças caminha longas distâncias até à escola, o que representa mais uma barreira à educação.

(Djibril) Não. Há comunidades muito distantes e as crianças têm de caminhar 11, 12 ou até 13 quilométros por dia para chegar à escola. Para quem tem moto, o custo da gasolina é elevado. Estas distâncias tornam muito difícil a continuidade dos estudos. É difícil sonhar assim. Queremos mais para as nossas crianças mas a realidade torna tudo mais complicado.

Qual seria o seu grande sonho para a educação na Guiné-Bissau?

(Mamadu) O meu grande sonho é que a educação seja gratuita para todas as crianças no meu país. Que todas possam ter acesso à escola, independentemente da sua origem ou condição económica. A educação deve ser gratuita.

(Djibril) Gostaria que existisse uma grande universidade pública no país. Muitos professores que foram aqui formados acabaram por emigrar, sobretudo para Portugal. Isso deixou-nos um buraco em termos de profissionais qualificados. Hoje, quase já não há ensino superior de qualidade.

Como se atrai esses professores de volta?

(Djibril) Precisam de salários mais altos, especialmente no setor público. Com os baixos salários é muito difícil para um professor continuar a a trabalhar no país. Por isso, muitas escolas públicas cobram valores elevados do sétimo ao décimo segundo ano, tentando compensar essa falta. Isto acaba por prejudicar os alunos mais pobres.

Tem filhos?

(Djibril) Sim, um de 6 anos.

Está na escola? 

(Djibril) Sim, está.

O que deseja para o seu filho em termos de educação?

(Djibril) Quero que tenha uma boa educação, claro. Mas a realidade é dura. Se a família não tem dinheiro, não é possível continuar a estudar. Aqui em Bigene, há muitas crianças que desistem pelo caminho por falta de recursos económicos. Quem não tem dinheiro não consegue continuar na escola.

É o presidente da Associação Protege. Qual é o papel da associação na área da educação?

(Mamadu) Estamos a dar o nosso contributo através da Escola Irina Boteta. Temos mais de 100 crianças a frequentar a escola, de forma totalmente gratuita, porque sabemos que pertencem a famílias muito carenciadas. O nosso maior desejo é que o Estado invista na criação de escolas em todas as comunidades da Guiné-Bissau, garantido que todas as crianças tenham acesso a um ensino gratuito e de qualidade.

Gostaria de partilhar alguns feitos da Associação Protege?

(Mamadu) Conseguimos ajudar mais de 800 meninas menores de 15 anos que foram vítimas ou estavam em risco de casamentos precoces. Continuamos a trabalhar em diversas comunidades. Já estivemos na região de Cacheu, nomeadamente em Bigene e Ingoré, onde temos desenvolvido ações de sensibilização contra práticas nefastas como a violência doméstica, abuso sexual, tráfico de seres humanos, não escolarização das raparigas e mutilação genital feminina: práticas que contribuem para afastar muitas meninas da escola.

Mamadu Djaló
Djibril Sano

Caso Real: A Impressionante História de Malam

Esta história é verídica. Por respeito à pessoa envolvida, foram alterados o seu nome e as organizações mencionadas. Tudo o resto é real e a partilha da história está a ser feita com o consentimento da própria.

Condenado por existir

Antes de nascer, a vida de Malam já estava condenada. Quando a mãe descobriu que estava grávida, o pai insistiu para irem a uma “bruxa”. Ela disse-lhes que o bebé, apesar de aparentar ser um humano, seria, na verdade, um monstro ou uma cobra. O pai tomou uma decisão: assim que nascesse, seria abandonado. Malam foi deixado num rio quando era recém-nascido. Uma mulher encontrou-o e acolheu-o. No entanto, a avó do Malam acabou por localizá-lo e exigiu que a criança fosse devolvida ao pai. Foi o início de anos e anos de sofrimento indescritível.

Uma infância marcada pela violência

O pai e a madrasta torturavam-no, tanto física como psicologicamente. Era acorrentado, foi agredido e forçado a trabalhar desde cedo. Impediam-no de brincar, obrigavam-no a fazer as necessidades acorrentado e alimentavam-no com apenas três pedaços de pão por dia. A fome levou-o a procurar comida no lixo. Foi espancado pela polícia, paga pelo próprio pai. Ainda hoje carrega marcas visíveis no corpo.

Mas, no meio de tanta mágoa, Malam tinha uma sonho: estudar. Todos os dias, fazia 11 kms a pé de casa até à escola. Uma mulher oferecia-lhe comida às escondidas, mas sempre que o pai descobria, era novamente agredido.

A fuga para reencontrar a mãe

Aos 16 anos, decidiu fugir para encontrar a mãe. Sabia onde ela vivia e levou uma fotografia. Pediu boleia a estranhos, enfrentou a fome e a febre, mas chegou ao destino. Quando finalmente a encontrou, identificou-se com a fotografia. Ela emocionou-se ao ouvir o que o pai e a madrasta lhe faziam e disse-lhe para ficar, mas ele recusou e disse: “tenho algo a fazer”. Aos 17 anos, usou toda a dor que lhe foi causada para fundar uma organização que protegesse crianças como ele. Assim nasceu a Fundação Cuidar, dedicada à proteção de crianças vítimas de abusos, casamentos precoces e forçados, maus-tratos e violações.

A construção de um sonho

Um dia, Malam encontrou uma mulher chamada Flora Simbá a carregar um saco que aparentava ser pesado. Ajudou-a e ao mesmo tempo, iam conversando. Ao ouvir a sua história, Flora decidiu doar 300 euros para o ajudar. Com este valor, Malam começou, sozinho, a construção de uma escola. Hoje em dia, esta escola continua a funcionar e já impactou milhares de crianças na Guiné-Bissau, oferecendo, a muitas delas, ensino gratuito.

“O mal não se combate com outro mal”

Malam tem todos os motivos para odiar tudo e todos, para ter raiva por tudo e por todos, para sentir revolta de tudo e de todos. Mas não: seguiu outro caminho. Quando eu lhe perguntei: tu não odeias o teu pai? tu não odeias este mundo? Ele disse-me: “Não. Não odeio ninguém. O mal não se combate com outro mal”. É pessoas como estas que precisamos, é seres humanos como estes que nos faltam. Que mesmo depois de passarem por tudo e por mais alguma coisa, escolhem mudar o mundo para um lugar melhor. Nelson Mandela, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Malala Yousafzai, Malam e tantos, tantos outros, tantos imprescindíveis que não podemos nunca esquecer, que não podemos nunca odiar. 

Todos os dias, centenas de milhares de crianças sofrem de abusos e maus tratos. O silêncio é cúmplice e a indiferença pode matar ou ferir para sempre uma simples criança.

A todos vós que sofreram: sejam lutadores, lutem por combater o mal com o bem, por combater o ódio com o amor. Como Malam diz: “o mal não se combate com outro mal”. Vocês serão sempre os heróis.

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