A Luta das Imprescindíveis

Por Elas, Por Todos 

Na Guiné-Bissau, mas também em Portugal, nos Países Baixos, nos Estados Unidos, na Noruega ou no Congo, em todos os países, sem exceção, as mulheres continuam a ser vítimas de abusos, da indiferença e da falta de consideração. E nós, homens, não podemos continuar a fingir que isto não nos diz respeito. Elas não são menos do que nós. Nunca foram. São, simplesmente, como nós.

Se recuarmos no tempo: na idade média, as mulheres não podiam estudar nem escolher com quem casar e os casamentos forçados e precoces eram comuns. Passaram mais de 600 anos e continua a acontecer. Entre os séculos XVI e XVIII, a violação de mulheres era vista como uma arma de guerra ou uma “conquista”. Hoje, continua a ser. No século passado, milhares de mulheres lutavam pelo direito ao voto, à educação e à sua liberdade e em pleno século XXI, em demasiados países, isso ainda lhes é negado.

Falamos de violência doméstica, violência sexual, casamento forçado, casamento infantil e mutilação genital feminina. Falamos de mulheres que precisam da autorização do homem para estudar, trabalhar ou viajar. Falamos de leis e regras que impõe o que podem vestir. Falamos da desigualdade salarial para o mesmo trabalho. Falamos da proibição de ir à escola. Falamos de vítimas de violação que são, muitas vezes, vistas como as culpadas. Tudo práticas de um passado que está bastante presente, ao que se acrescenta, recentemente, os discursos de ódio contra as mulheres que se multiplicam nas redes sociais. 

Independentemente da cor ou da etnia, do país ou continente, da religião ou das crenças, as mulheres são sempre quem mais sofre e quem mais luta.  Esta é uma luta de todos, todos nós, seres humanos, e não somente das mulheres.

Contra Factos Não Há Argumentos

13% é a percentagem de mulheres deputadas, desde 1994, na Guiné-Bissau. (African Risk Capacity, 2024)

26% das mulheres entre os 20 e os 24 anos estavam casadas ou em união de facto antes dos 18 anos, na Guiné-Bissau. (UNICEF, 2024)

30% das meninas entre os 0 e os 14 anos foram submetidas à mutilação genital feminina, na Guiné-Bissau. (UNICEF, 2024)

97% das mulheres foram vítimas de violência baseada no género nos últimos 8 anos, na Guiné-Bissau. (World Bank Group, 2023)

mulher é morta a cada 10 minutos por um parceiro ou membro familiar, no mundo. (UN Women, 2025)

20% é quanto as mulheres ganham a menos do que os homens pelo mesmo tipo de trabalho. (UN Women, 2025)

25% dos países registaram um recuo no direito das mulheres. (UN Women, 2025)

30% das mulheres no mundo sofreram, ao longo da sua vida, violência física ou sexual. (World Health Organization, 2024)

75% dos deputados no mundo são homens e 103 países nunca tiveram uma mulher como chefe de estado . (UN Women, 2025)

Entrevista: A Luta das Imprescindíveis

Eva Joãozinho Quim é animadora da Associação Protege. De origem Balanta, uma das comunidades onde a mutilação genital feminina é mais elevada no país, luta pela igualdade de género e pelo fim desta pratica.

Aissa Cali é jornalista da Rádio Capital. Trabalha no Comité Nacional de Abandono às Práticas Nefastas. Promove ações de sensibilização nas comunidades onde as mulheres são mais afetadas.

O que é ser mulher na Guiné-Bissau?

(Eva) Na Guiné Bissau, ser mulher não é fácil. Aqui, as mulheres trabalham muito e fazem grandes sacrifícios para sustentar os seus filhos.

(Aissa) Ser mulher na Guiné-Bissau é ser um verdadeiro exemplo de superação no dia-a-dia. A mulher guineense enfrenta inúmeras barreiras e desafios: cuidar dos filhos, ir trabalhar… Em muitas regiões do país, diz-se que a mulher é a dona de casa: é ela quem deve assumir todas as tarefas domésticas como cozinhar, lavar a loiça, limpar a casa e cuidar das crianças. Mas a realidade é que, além dessas responsabilidades, as mulheres também precisam de estudar e trabalhar. Temos de lutar para que os direitos das mulheres e dos homens sejam reconhecidos como iguais. Não podemos aceitar que, numa casa com um menino e uma menina, seja apenas a menina a assumir os cuidados domésticos, enquanto o rapaz pode jogar à bola, estudar e descansar.

A Guiné-Bissau é um dos países com maior incidência de mutilação genital feminina. Que medidas têm sido tomadas para combater esta prática?

(Eva) Existem muitas etnias que ainda mantém essa prática. A única forma de a reduzir é através de ações de sensibilização e projetos que trabalhem diretamente com as comunidades. Só assim é possível mudar.

(Aissa) É um trabalho desafiador. No entanto, estamos a desenvolver sessões de sensibilização e formação nas comunidades, tanto em diferentes regiões como em alguns bairros da capital. O objetivo é ajudar as pessoas a distinguir práticas culturais do bem estar e saúde das mulheres. Quando uma prática é prejudicial à saúde é preferível abandoná-la. Temos vindo a realizar programas de rádio com mensagens de sensibilização sobre o abandono das práticas nefastas, com foco particular na Mutilação Genital Feminina. Estes programas são transmitidos diariamente em cinco rádios: quatro comunitárias nas regiões de Bafatá e Gabú e uma rádio privada em Bissau.  

E em relação aos casamentos forçados?

(Eva) No passado, eram muito mais comuns. No entanto, graças às campanhas de sensibilização junto das comunidades, a taxa de casamentos precoces tem vindo a diminuir. Estas ações também têm incentivado as raparigas a frequentarem cada vez mais a escola. Mas o esforço tem de continuar. Não é algo fácil, mas é necessário. Quando chegamos às comunidades, muitas pessoas dizem-nos que se trata de uma tradição e de uma prática cultural com muitos anos. Ainda assim, temos de trabalhar para reduzir essas práticas.

(Aissa) Como disse anteriormente, é um trabalho desafiante. Cada pessoa tem uma forma de compreender estas questões. Quando alguém nasce e cresce com determinadas ideias, que fazem parte da cultura e tradição, e as vê como obrigatórias, mudar esta mentalidade é um processo longo. Contudo, graças ao trabalho de muitas pessoas nas comunidades, está-se a fazer progressos.

Qual considera ser a maior Luta enquanto mulher?

(Eva) A educação. Só através da educação das mulheres é que podemos avançar. Quando uma pessoa tem conhecimento, consegue distinguir o que está certo do que está errado. É fundamental investir numa educação sólida e de qualidade para todas. Pertenço à etnia Balanta, mas não fui submetida à mutilação genital. Casei com um muçulmano e, segundo a tradição, deveria ter passado por esse processo. Felizmente, nem eu nem a minha filha fizemo-lo. Lutei contra essa prática. Hoje, as mulheres falam connosco sobre o que sentem, debatem os seus direitos e já reconhecem a importância de se fazer ouvir, de ver e de agir. As mulheres têm, cada vez mais, consciência dos seus direitos.

(Aissa) É um desafio constante. A mulher guineense representa uma verdadeiro exemplo de superação. É o exemplo de acordar cedo e ir buscar, de quem trabalha para conquistar os seus objetivos sem esperar por ninguém. É o exemplo de quem é mãe e pai ao mesmo tempo, de quem leva a vida para a frente, sozinha. A mulher guineense é o reflexo da força, da resiliência e da capacidade de lutar sozinha por tudo aquilo que deseja.

Eva Joãozinho Quim
Aissa Cali

Caso Real: Do Sonho ao Inferno

Esta história é verídica. Por respeito à pessoa envolvida, foram alterados o seu nome e as organizações mencionadas. Tudo o resto é real.

Com 6 anos, os pais de Adama separaram-se e ela ficou aos cuidados do tio. Na tabanca onde vivia, não havia uma única escola com ensino secundário e por isso, andava 12 quilómetros todos os dias até ao liceu. O seu maior sonho era estudar e acabar o secundário. Infelizmente, algo mudou. 

Um dia, depois das aulas, o tio foi buscá-la à escola. No caminho, disse-lhe que já tinha arranjado um “marido” e que em 2 semanas ia casar. Adama nunca estivera com este homem que tinha 53 anos, 2 esposas e 5 filhos. Recusou, dizendo que queria continuar a estudar. O tio, ouvindo a resposta, agrediu-a e impediu-a de ir à escola. 

Mais tarde, a Adama descobriu a razão do casamento: há algum tempo, o tio tinha pedido emprestada uma vaca a um conhecido para uma cerimónia tradicional, chamada Toca Tchur (cerimónia tradicional de etnia Balanta. Envolve, por exemplo o sacrifício do gado, como vacas ou porcos, para homenagear os antepassados) . Como não tinha meios para devolver o animal, decidiu “compensar” oferecendo a sobrinha como esposa.

Na véspera do casamento, com medo que Adama fugisse, o tio amarrou-lhe os pés e as mãos e trancou-a num quarto. O irmão, ao aperceber-se do que se estava a passar, esperou que o tio adormecesse, desamarrou as cordas da irmã e ajudou-a a fugir para a Associação Defender.

Adama é apenas 1 das milhões de raparigas que sofre casamento precoce. Não pode continuar assim. Basta de violações e ser cúmplices delas, Basta de assédio e tentar justificá-lo, Basta de casamentos forçados e precoces. Basta de dizer: “mas elas, hoje em dia, têm mais vantagens”, porque não é verdade. Os dados mostram precisamente o contrário. Basta de justificar tudo com cultura ou religião. Quando falamos de direitos das mulheres, não estamos a falar de cultura ou de tradição, estamos a falar sim, de direitos humanos. Esta luta não é apenas das mulheres. É também dos homens, de todos os seres humanos.

  • Deixa um Comentário

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *